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Sáb, 05 de Novembro de 2011 08:05

Vala clandestina do Cemitério de Ricardo de Albuquerque

Escrito por  ROMILDO VALLE
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Mortos em Ricardo de AlbuquerqueResumo da história da vala clandestina do Cemitério de Ricardo de Albuquerque
 
Em maio de 1991, com a autorização do governo do Estado do Rio de Janeiro, o Grupo Tortura Nunca Mais/RJ iniciou pesquisas no Instituto Médico Legal, no Instituto de Criminalística Carlos Éboli e na Santa Casa de Misericórdia. Documentos encontrados mostraram a existência de três cemitérios no Rio de Janeiro que, ao final dos anos 60 e durante toda a década de 70, receberam mortos que foram enterrados como indigentes, em diferentes épocas: Ricardo Albuquerque (entre 1971 e janeiro de 1974), Cacuia e Santa Cruz. Segundo documentos encontrados nos três estabelecimentos pesquisados, pelo menos 14 militantes políticos foram enterrados em Ricardo de Albuquerque em uma vala clandestina. São eles:


Ramires Maranhão do Valle e Vitorino Alves Moitinho (desaparecidos políticos), José Bartolomeu Rodrigues de Souza, José Silton Pinheiro, Ranúsia Alves Rodrigues, Almir Custódio de Lima, Getúlio d’Oliveira Cabral, José Gomes Teixeira, José Raimundo da Costa, Lourdes Maria Wanderley Pontes, Wilton Ferreira, Mário de Souza Prata, Merival Araújo e Luiz Guilhardini (mortos reconhecidos oficialmente), todos enterrados como indigentes, em covas rasas.
 
Anos depois, os restos mortais de todos foram levados para um ossuário geral. Em 1980, cerca de 2100 ossadas foram retiradas do ossuário e enterradas em uma vala clandestina. Esta vala não se encontra nomeada em nenhum documento oficial do cemitério e foi descoberta – assim como outros dados conseguidos pelo GTNM/RJ – por informações obtidas com os antigos coveiros do cemitério. Tanto que, quando o GTNM/RJ lá chegou, em parte do local onde indicavam estar a vala, foram construídos vários túmulos recentes (gavetas). Quando, em setembro de 1991, foi iniciado o trabalho de abertura da vala, constatou-se efetivamente que sua largura e comprimento eram exatamente iguais ao que os antigos coveiros haviam informado. Por isso, a administração do cemitério teve que demolir as gavetas então construídas em parte da extensão e largura da vala. Ainda em setembro do mesmo ano, foi iniciado o trabalho de exumação dessas ossadas contidas na vala de Ricardo de Albuquerque com a ajuda de dois médicos legistas indicados pelo Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro/CREMERJ, Drs. Gilson Souza Lima e Maria Cristina Menezes, e da professora Nancy Vieira, antropóloga da Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. De início, as ossadas recuperadas foram guardadas no IML de Campo Grande, sendo posteriormente transferidas para o Hospital Federal de Bonsucesso, entidade indicada pelo CREMERJ e que oferecia local adequado para a catalogação dos ossos do crânio e arcadas dentárias. Este trabalho foi executado sob a supervisão da Equipe Argentina de Antropologia Forense, nas pessoas dos Drs. Luiz Fondebrider, Mercedes Doretti e Silvana Turner que estiveram no Rio de Janeiro em duas ocasiões, em setembro de 1991 – por ocasião da exumação – e em março de 1993. A tentativa de identificação continuou até março de 1993, quando, com a presença de membros da Equipe Argentina de Antropologia Forense, resolveu-se encerrar a investigação. Segundo parecer dessa equipe, “a tarefa de encontrar 14 ossadas entre cerca de 2.000 era sem dúvida muito complexa, estando todas misturadas e em péssimas condições”. Acrescentaram, ainda, a impossibilidade de fazer, nessas 2.100 ossadas, exame de DNA. As ossadas retiradas, cerca de dez por cento dos crânios e grande quantidade de ossos longos, foram catalogadas e separadas, estando hoje guardadas no Hospital Federal de Bonsucesso. Desde então, a vala foi resguardada para que tais ossadas sejam a ela devolvidas, em local apropriado - um memorial em homenagem aos companheiros que foram mortos pela repressão e ali sepultados como indigentes e sem identidade. Em 2008, o GTNM/RJ encaminhou à Prefeitura do Rio de Janeiro a proposta de construção do memorial, ora concretizado a partir de projeto concebido por arquitetos da RioUrbe, e que aguarda a data de inauguração, nele constando a seguinte inscrição e identificação dos militantes ali localizados:

   
Mortos em Ricardo de Albuquerque1.ALMIR CUSTÓDIO DE LIMA                PCBR(1950 – 1973)
2.GETULIO D’OLIVEIRA CABRAL            PCBR(1942 – 1972)
3.JOSE  BARTOLOMEU RODRIGUES DE SOUZA    PCBR(1949 – 1972)
4.JOSE GOMES TEIXEIRA                MR8(1941 – 1971)
5.JOSE RAIMUNDO DA COSTA              VPR(1938 – 1971)
6. JOSÉ SILTON PINHEIRO                PCBR(1948 – 1972)
7. LOURDES MARIA  WANDERLEY PONTES        PCBR(1943 – 1972)
8. LUIZ GUILHARDINI                    PCdoB(1920 – 1973)
9. MARIO DE SOUZA PRATA                MR8(1945 – 1971)
10. MERIVAL ARAÚJO                ALN(1949 – 1973)
11. RAMIRES MARANHÃO DO VALLE        PCBR(1950 – 1973)
12. RANUSIA ALVES RODRIGUES            PCBR(1945 – 1973)
13. VITORINO ALVES MOITINHO            PCBR(1949 – 1973)
14. WILTON FERREIRA                VAR-PALMARES(   ?     – 1972)
 
Na entrada do cemitério, ao lado do prédio administrativo, foi afixado um marco indicativo da existência e localização do memorial.

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